DA INTUIÇÃO À REFLEXÃO


A vida, de forma despretensiosa, brinda-nos com momentos que vêm carregados de significados e sentimentos. É como se, por uma distração qualquer, o véu do tempo se rompesse e um brilho da eternidade conseguisse chegar ao nosso olhar. Nesses momentos, intuições clarificam-se, mudanças consolidam-se e outras iniciam-se. São momentos que nos fazem pensar. E os pensamentos, leves, feito bolhas de sabão, brincam em nossa cabeça. As palavras dão as mãos umas às outras como em uma grande ciranda de frases. E, então, a intuição converte-se em reflexão.

Kruger National Park - África do Sul - 2005

01/06/2009

ASSIS É AQUI



Diálogo Interreligioso com rosto brasileiro


No dia 13 de maio último, aconteceu, em Belo Horizonte, a I Caminhada Cultural pela Liberdade Religiosa e pela Paz. A data escolhida para o evento – Dia da Abolição da Escravatura e Dia Nacional de Denúncia contra o Racismo – evidenciou o espírito com que o evento foi organizado: a denúncia contra a intolerância religiosa de que são vítimas as religiões de matriz africana e a busca pelo entendimento entre as religiões e pela paz na sociedade brasileira.

A iniciativa do evento partiu de grupos ligados ao movimento negro, ao candomblé e à umbanda. A Educafro participou do evento como uma das entidades organizadoras. O evento significou um passo importante em Belo Horizonte na luta contra a intolerância religiosa arraigada na sociedade brasileira e que, volta e meia, vem à tona através de atos de violência ou ações discriminatórias contra os adeptos da religiões de matriz africana. Mais do que uma denúncia contra a intolerância, a caminhada foi a demonstração de que uma convivência e compreensão mútua são possíveis.

Audiência pública

A caminhada foi precedida por uma audiência pública na Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, no dia 6/5/2009. No auditório da Assembleia, estiveram presentes lideranças do candomblé e da umbanda, representantes da Polícia Militar, da Igreja Metodista, da Igreja Católica, da Secretaria dos Direitos Humanos, da comunidade Hare Krishna e de entidades culturais e universitárias.

Os líderes religiosos afirmaram a indignação frente a práticas discriminatórias e de intolerância contra as religiões afro-brasileiras. É uma realidade frente à qual não podemos fechar nossos olhos. Em fevereiro do ano passado, um terreiro de Contagem foi invadido por policiais militares, sem mandado policial, a partir de uma denúncia anônima de cárcere privado. Os locais sagrados foram violados e várias pessoas foram levadas para a delegacia, quando foi confirmado que a denúncia era improcedente. Em abril deste ano, um homem encapuzado invadiu um terreiro de candomblé no bairro Dom Silvério, em Belo Horizonte, matando uma pessoa e deixando várias feridas. Uma cena como essa – policiais armados invadindo um lugar de culto – seria plausível dentro de um templo católico ou da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD)? Esta última denominação religiosa, por sinal, tem sido responsável por exportar para países da África uma intolerância religiosa à moda brasileira. Em Moçambique, pastores brasileiros mereceram destaque na imprensa local por fazerem com a religião tradicional africana (o culto familiar aos antepassados) o mesmo que fazem em relação ao candomblé e a umbanda no Brasil: a satanização dos ritos dessas religiões. Na Zâmbia, a IURD chegou a ser proibida de operar no país, devido às mesmas acusações de provocar intolerância no meio da população local. O Brasil exporta, atualmente, não apenas novelas, frangos e sandálias havaianas. Exporta, também, intolerância religiosa.

As igrejas pentecostais são as principais protagonistas de atos de intolerância. Neste sentido, não se pode excluir o papel da Igreja Católica nessa cultura de intolerância, principalmente através do movimento pentecostal católico (RCC). Em 2008, a Justiça da Bahia determinou o recolhimento, em Salvador, de todos os exemplares do livro "Sim, Sim! Não, Não! Reflexões de Cura e Libertação", da editora Canção Nova, escrito pelo padre Jonas Abib. Para o Ministério Público baiano, que pediu o recolhimento do livro, o padre cometeu o crime de "prática e incitação de discriminação ou preconceito religioso", previsto na lei 7. 716, de 1989. De acordo com o promotor Almiro Sena, Abib faz no livro "afirmações inverídicas e preconceituosas à religião espírita e às religiões de matriz africana, como a umbanda e o candomblé, além de flagrante incitação à destruição e ao desrespeito aos seus objetos de culto". No livro, o autor afirma que "O demônio, dizem muitos, ‘não é nada criativo’. (...) Ele, que no passado se escondia por trás dos ídolos, hoje se esconde nos rituais e nas práticas do espiritismo, da umbanda, do candomblé". Esta satanização das religiões afro-brasileiras, típica de grupos religiosos fanáticos, tem crescido na sociedade brasileira, à medida em que o pentecostalismo – seja ele de cunho evangélico ou católico – ganha espaço na nossa sociedade. É emblemático que padres e pastores, com acesso privilegiado aos meios de comunicação social (uma concessão do Estado brasileiro) e com o consequente poder de persuassão das massas, se coloquem a divulgar e a incentivar práticas contrárias à Constituição brasileira e, fundamentalmente, ao Evangelho.

A Educafro e o diálogo com as religiões afro-brasileiras

A Educafro Minas, pelo fato de ser um cursinho pré-vestibular com enfoque racial, tem possibilitado à Província Santa Cruz um contato institucional com o movimento negro e com os grupos religiosos de matriz africana na região metropolitana de Belo Horizonte. Sem contato, não há diálogo. A sede da Educafro em Belo Horizonte serviu de apoio para a preparação e o lançamento da caminhada. Os organizadores da caminhada sabem: a Educafro está ligada aos frades franciscanos e eles os acolhem, com os franciscanos é possível haver diálogo e compreensão. Pois o contrário da intolerância não é a tolerância. Tolerar as demais denominações religiosas é o princípio de uma caminhada que devemos percorrer, mas não é o que se busca como meta. O que se busca ao abandonarmos a intolerância é a compreensão, o conhecimento das razões profundas das tradições religiosas e culturais afro-brasileiras, para daí resultar uma convivência respeitosa e fraterna.

No dia da caminhada e na audiência na Assembleia Legislativa, a força simbólica do hábito franciscano misturado em meio à indumentária branca dos adeptos do candomblé e da umbanda falava por si só, num paralelo em menor escala do Encontro Mundial de Oração pela Paz, realizado em Assis, em 27 de outubro de 1986. A imagem do papa João Paulo II rodeado pelos representantes das principais tradições religiosas espalhadas no mundo, em coloridas indumentárias e postados em frente à igrejinha da Porciúncula, onde São Francisco deu início ao seu projeto evangélico, foi um momento histórico na caminhada do diálogo interreligioso.
Em Belo Horizonte, como em Assis, a caminhada de braços entrelaçados dos frades com seus hábitos e as yalorixás e babalorixás em suas roupas rituais, demonstram a possibilidade concreta desse entendimento e respeito fraterno. Uma liderança do candomblé afirmava: nos nossos toques de sexta-feira, começamos sempre com a oração pela paz de São Francisco. O santo de Assis, banido do meio das senzalas e da religião dos povos negros pela sua associação com os senhores de escravos (e com os próprios frades escravagistas), retorna no nosso tempo como símbolo e exemplo da paz e do entendimento.

O rosto brasileiro do diálogo interreligioso

O diálogo interreligioso constitui um duplo imperativo para os membros da família franciscana. Fundamentalmente, é um imperativo cristão. A intolerância, seja ela religiosa ou de qualquer outra forma, é incompatível com o cristianismo. Na prática e na pregação de Jesus, ele se mostrou disponível para o diálogo com a samaritana, elogiou a fé da mulher siro-fenícia, apresentou o samaritano da parábola como exemplo de compaixão, acolheu aqueles que eram tidos como pecadores pela sociedade do seu tempo e com eles confraternizava e tomava refeição. Na sua pregação, afirmou que Deus fazia chover sobre justos e injustos, que a oferta de salvação é dada a todos, indistintamente, de uma maneira misteriosa. Nos passos de Jesus, o gesto de Francisco de Assis de dialogar com o sultão Malek-al-Kamil durante a V Cruzada no ano de 1219 na cidade de Damieta, no Egito, mostra a disposição e a abertura do santo de Assis para o diálogo, mesmo no contexto belicoso das cruzadas cristãs. Nasceu aqui – mas, não somente neste episódio – o carisma franciscano para o diálogo e o entendimento entre as culturas, povos e religiões. Portanto, o diálogo é, também, um imperativo proveniente do nosso carisma fundacional.

Esse imperativo para o diálogo, ao colocar os pés em terras brasileiras, deveria, em princípio, priorizar três grupos principais: os adeptos do candomblé, da umbanda e do espiritismo kardecista. E isso por dois motivos principais. O primeiro, por questões numéricas. Essas tradições religiosas representam, numericamente, o maior grupo fora da esfera do cristianismo católico ou evangélico no Brasil. O segundo motivo tem a ver com o papel, principalmente do candomblé e da umbanda, na formação da cultura e da identidade brasileira. É esse diálogo interreligioso de cor negra e de periferia que deveria ser priorizado aqui no Brasil, onde o judaísmo e islamismo estão longe de se apresentarem como grandes desafios à nossa fé e ao nosso entendimento.

Diferente da manhã tensa e violenta que tomou conta do centro de Belo Horizonte, quando estudantes secundaristas em manifestação pela adoção do meio-passe nos ônibus da capital entraram em confronto com a Polícia Militar, a Caminhada pela Liberdade Religiosa transcorreu de maneira descontraída e alegre. Desde o início da tarde, os diferentes grupos se revezaram em apresentações musicais, intercaladas pelas falas dos representantes dos diferentes grupos. Às 18 horas, o grupo saiu em caminhada pela Avenida Afonso Pena.

A caminhada terminou como começou: uma grande confraternização de diferenças religiosas na Praça Afonso Arinos. Ao observar a cena do alto co carro de som, uma certeza fazia-se presente. Jesus, ao falar do Reino, usava imagens relacionadas com banquetes para descrevê-lo. A imagem do banquete messiânico do Reino de Deus carrega várias realidades: a alegria, a comensalidade, o congraçamento, a comunhão, o sentar-se junto para cear, a música, a dança e a festa. Neste sentido, é possível afirmar: naquele congraçamento na Praça Afonso Arinos, estava presente, ainda que de maneira seminal, a realidade do Reino de Deus no meio de nós.

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