6 de mar. de 2018

TEOLOGIA DA VIDA RELIGIOSA CONSAGRADA


Curso para Formadores, Animadores Vocacionais e Guardiães  da CFMB

Teologia da Vida Religiosa Consagrada


23 de fev. de 2013

AO FECHARMOS OS NOSSOS OLHOS







       Escrevo estas palavras sob o efeito de uma dor: alguém partiu... Não há esperança de seu regresso. Resta somente a certeza do reencontro com essa pessoa, quando também eu caminhar em direção ao mesmo destino que ela finalmente alcançou. Morrer é um processo doloroso. Algumas vezes mais, outras vezes menos, mas, dolorido sempre, para os que partem e para os que ficam. A violência humana e da natureza que ceifa vidas, a imprudência nas estradas, uma fatalidade qualquer, uma enfermidade que nos consome lenta ou rapidamente, ou mesmo a inexorável degradação física, acompanhada da degradação mental, que nos chega quando conseguimos sobreviver a esses ardis da existência. A dor do morrer, sempre. Dor provocada pelo amor. Dor advinda da saudade. Dor com raízes em alguma forma de remorso. Dor alimentada por algum tipo de revolta. A dor de acompanhar o lento extinguir da vida de pessoas que amamos: as mãos outrora calorosas cada vez mais frias, o olhar amoroso cada vez mais apagado, os lábios, que tanto instruíram e rezaram, cada vez mais mudos, a memória que se vai apagando até o irreconhecimento dos próprios filhos. A dor de uma presença sufocante de quem partiu, manifestada na sua ausência: nunca antes a sua presença se fez sentir de maneira tão forte. A dor paradoxal da dor que abranda: invade-nos uma sensação difusa de culpa pela dor que diminui com o tempo, como se estivéssemos esquecendo e abandonando a pessoa que partiu em virtude de já não chorarmos tanto pela sua partida. A dor, sempre.

       Paulo, em sua Carta aos Romanos, afirma que, com o pecado, a morte entrou no mundo. Uma lógica rasa da nossa parte poderia concluir que, sem o pecado, seríamos naturalmente imortais nesta forma humana de vida. Nada mais errado. Somos constitutivamente e naturalmente mortais para esta forma de vida. O que o pecado talvez tenha introduzido seja a forma traumática como vivemos a morte, não mais compreendida como o natural caminhar em direção ao Criador. Ou, talvez ainda – o mais grave – o pecado tenha apagado de nossos corações a imagem amorosa e acolhedora de Deus, substituindo-a pela imagem de um Deus rigoroso, que "irá nos punir severamente" no dia do juízo, como afirmado na homilia de um jovem padre recentemente. Diante de um ídolo assim – pois não se trata de Deus, mas de um falso deus imposto a gerações de cristãos –, não nos resta outra atitude a não ser o medo. Assim, à dor advinda da partida de pessoas que amamos, soma-se a angústia advinda da incerteza acerca do destino final daqueles que partiram. Nada mais triste.

       Para aplacar a dor, buscamos remédios. Também eu faço uso deles. O remédio de que eu faço uso, entretanto, não se encontra em farmácias. O meu remédio são palavras.

       A primeira palavra que alivia a dor de meu peito foi escrita com os caracteres dos sábios e dos filósofos gregos. Às portas do nascimento de Cristo, cerca de cinquenta anos do início da era cristã, um sábio da comunidade de judeus em Alexandria, no norte do Egito, afirmou pela primeira vez, com clareza, na história do povo de Israel, a crença na vida pós-morte e a recompensa para o justo. Nascia o livro da Sabedoria, rejeitado como inspirado pelos judeus, que definiram a lista de livros considerados sagrados para o judaísmo, e seguido pelos cristãos da Reforma. Os cristãos de tradição católica e oriental, entretanto, tiveram a sabedoria de ver nele o prenúncio daquilo que se tornou certeza em Cristo: a ressurreição. No livro da Sabedoria, encontramos as seguintes palavras: “A vida dos justos, ao contrário, está nas mãos de Deus, e nenhum tormento os atingirá. Aos olhos dos insensatos, aqueles pareciam ter morrido, e o seu fim foi considerado como desgraça. Os insensatos pensavam que a partida dos justos do nosso meio era um aniquilamento, mas agora estão na paz.” (Sb 3,1-4). Os justos estão em paz, mesmo que tenham vivido uma vida difícil e que tenham morrido repentinamente. Se hoje essa afirmação tornou-se um dos elementos centrais da fé cristã, não foi fácil ser afirmada há mais de 2.000 anos. Os justos estão em paz. Uma afirmação simples que ecoa repetidamente em nosso coração e ajuda a aliviar a dor. Uma certeza simples, como simples é o amor de Deus por toda a sua criação.
Outra palavra que alivia a minha dor é um fragmento de um dos sonetos de amor de Pablo Neruda, poeta chileno. Em “A dança”, ele diz à sua amada:

               Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,
               te amo diretamente sem problemas nem orgulho:
               assim te amo porque não sei amar de outra maneira,

               Se não assim deste modo em que não sou nem és
               tão perto que a tua mão sobre meu peito é minha
               tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho.

       “Tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho”: o fechar dos olhos de um é o sonhar do outro. O toque de um se torna o toque do outro. A dor de um se converte na dor do outro. A alegria de um se confunde com a alegria do outro amado. Um só coração. Uma só alegria. Uma só dor. Uma única e mesma comunhão. Um só olhar.

       É assim o Amor e a Comunhão Trinitária. Sem perder as individualidades, o amor da Comunhão Trinitária une Pai, Filho e Espírito em uma só vida. O amor da Comunhão Trinitária não fica fechado nela mesma: ele extravasa em direção a toda a criação. Para nos comunicar melhor esse amor, o Verbo se fez carne da nossa carne e sangue do nosso sangue. A compaixão – fazer seus a dor e o sofrimento alheio – foi a força do agir e do pregar de Jesus. Pela sua encarnação e humanização, Jesus fez-se nosso irmão, de acordo com o autor da Carta aos Hebreus. Ao irmanar-se com a nossa debilidade humana pela encarnação, o Verbo de Deus nos agraciou não apenas com a solução temporária da cura de uma doença ou de um mal psíquico, com a saciedade provisória possibilitada por um pedaço de pão e de peixe e por um gole de vinho, com a alegria efêmera da volta de Lázaro da morte para esta vida ainda mortal. Ele agraciou-nos com a solução definitiva da alegria da participação de todos no banquete da bem-aventurança eterna.

       Ressurreição: um abrir e um fechar de olhos. Fechamos os nossos olhos para esta forma de vida e os abrimos para a vida eterna. Nada mais, nada menos. Nem três dias, nem sete dias depois: toda a radical transformação pela qual todo o nosso ser irá passar em apenas um piscar de olhos. Radicalmente transformados pela ressurreição, seremos, radicalmente, nós mesmos. Ouviremos, então, aquele convite irrecusável: “Vinde, benditos de meu Pai! Tomai posse no Reino que foi para vós preparado!”. E, então, seremos lançados ao fogo do Amor Trinitário, que nos consumirá. Esse fogo será o responsável pela nossa transformação final. Como a metáfora da chama viva de amor, de São João da Cruz, que faz arder a lenha até transformá-la em brasa, não mais lenha e fogo, mas uma só coisa – a brasa – onde não é possível distinguir um do outro, assim seremos transformados até atingirmos a perfeição do Amor Trinitário. Alguns começam essa transformação ainda em vida e muito progridem nela. Outros, pouco caminharam nesse itinerário de transformação. Mas, para uns e outros, a mesma conformação final.

       À eternidade e à ressurreição chegaremos todos juntos. A vida eterna é, pelo seu próprio significado, atemporal. Eternidade não quer dizer algo que se prolonga indefinidamente em direção ao futuro. Eterno significa a suspensão e a ausência dessa realidade humana experimentada como tempo: um passado para trás, um presente diante dos nossos olhos e um futuro à nossa frente. A eternidade é atemporal. Isso significa que aquilo que experimentamos como um antes e um depois nesta presente forma de vida não é experienciado na vida eterna. Aqueles que partiram antes e aqueles que partirão depois chegam juntos à vida eterna com aqueles que partem agora. A ressurreição de Cristo é, simultaneamente, a ressurreição de todos aqueles que vieram a esta vida antes, juntos ou depois d’Ele. O fechar dos olhos de Jesus crucificado para esta vida e o abrir dos olhos do Cristo Jesus glorificado no seu retorno à Trindade é o fechar e o abrir dos olhos de toda a humanidade, que morre e ressuscita junto com Ele. A travessia é feita juntos, de mãos dadas com Jesus, feito nosso irmão pela sua encarnação, paixão, morte e ressurreição. Não é uma travessia solitária e fria, mas calorosa e conjunta com a multidão de toda a criação.

       Mas, e os ímpios?

       Pela travessia proporcionada pela morte, eles estarão reunidos e face a face com as suas vítimas. E receberão o veredicto final: o amor, a misericórdia e o perdão do próprio Deus e de todas as vítimas. Esse face a face dos algozes com as suas vítimas talvez provoque neles uma transformação ainda mais radical do que a ocorrida com os justos. Ou, talvez, provoque neles um fechamento definitivo: a vergonha autoimposta diante desse último e inesperado gesto das suas vítimas. Não a condenação e a rejeição, mas o perdão e a acolhida. Então, talvez, eles se afastem e caiam no frio e solitário vazio da vida que passa pela morte sem se completar no fogo e no crisol da ressurreição. E permanecerão no gelo de uma solidão eterna, sem princípio, sem fim, presente, sempre. Talvez seja assim. Mas, poderá alguém fechar-se à última e definitiva oferta do Amor de Deus e dos justos?

       Uma última palavra consola-me. Essa palavra vem escrita com o sobe e desce das notas de uma música em um pentagrama, as cinco linhas por onde caminha a gramática da música. Para os não entendidos, compreender a linguagem dos músicos expressa na partitura musical pode ser algo difícil. Mas, sorte nossa, mesmo que para ignorantes ou eruditos na arte da linguagem musical, o resultado da execução dessa gramática musical é facilmente acessível a todos. É que a música é algo que fala diretamente ao coração. Os seus acordes se adentram nas fissuras da nossa alma, provocando em nós diferentes sentimentos e reações. É uma compreensão direta, cordial, que não passa tanto pela intelectualização daquilo que chega a nós pela nossa percepção, como tanto prezava o guardador de rebanhos e de palavras Alberto Caeiro. A palavra em forma de música que me consola é a seguinte:

       A essa melodia acrescenta-se a palavra cantada com a voz humana, que, por divina inspiração, assim afirmou no Livro do Apocalipse:

               Bem-aventurados entre os mortos
               Quem adormeceu no Senhor
               Repousar de suas fadigas vai
               Quem por Deus viveu no labor.

       É uma melodia que não esconde a dor que se instala com a morte. Mas, ao mesmo tempo, as notas nos sinalizam uma esperança, uma alegria serena ao fim de tudo. Suavidade é um dos nomes de Deus. E é isso o que a melodia nos comunica: a suavidade do morrer daqueles que adormecem em Cristo. Esse canto, cantado repetidas vezes pela voz humana ou pelo silêncio do nosso coração, converte-se em um acalanto que faz a nossa dor abrandar. Acalanto: aconchego, carícia, afago, cantiga para embalar. Adormecidos por este acalanto, sonhamos com a nossa infância, quando fomos maternalmente e paternalmente embalados nos braços de nossos pais. Nesses colos seguros adormecemos tantas vezes. Agora, é o próprio Deus quem nos toma em seus braços e nos embala em nossa dor, pedindo de nós o abrir dos nossos olhos para esta verdade definitiva: são bem-aventurados entre os mortos aqueles que adormeceram no Senhor, pois irão repousar de suas fadigas, quem por Deus viveu no labor do seu Reino.



       E é isso, minha cara Ana Cláudia, um pouco da verdade em que acredito e pela qual eu vivo. Mas, em se tratando da vida após a morte, tudo o que dissermos pode estar distante daquilo que é e que se revelará plenamente a nós algum dia. Não erramos, porém, quando afirmamos o Amor entranhado de Deus por nós, que nos consumirá e nos transformará definitivamente, um dia, ao fecharmos os nossos olhos para esta vida...

2 de out. de 2011

O RABO DA PORCA

 




“Deus nos dá pessoas e coisas,
para aprendermos a alegria...
Depois, retoma coisas e pessoas
para ver se já somos capazes da alegria sozinhos...
Essa... a alegria que ele quer.”

Guimarães Rosa


Gratuidade e reciprocidade, duas realidades aparentemente inconciliáveis. Quando uma entra em cena, a outra deixa o tablado. A gratuidade é via de mão única em direção ao outro. A reciprocidade trafega em estrada de mão dupla. O amor é o transeunte dessas duas vias. Trafega ora em uma, ora em outra via, em uma tensão permanente.


Na dinâmica dos relacionamentos humanos, a reciprocidade tem predominância. Desde cedo fomos condicionados (ao mesmo tempo em que condicionávamos nossos pais) nessa dinâmica de dar e receber algo em troca: estripulias por palmadas na bunda, bom comportamento por um brinquedo, boas notas por passeio. Crescemos e as nossas necessidades e desejos tornam-se mais sofisticados: afeto, diálogo, encontro, escuta, ombro amigo. A expectativa por sermos atendidos nesses novos desejos é transportada do núcleo familiar para o círculo de amizades e de outras formas de relacionamentos, como o namoro e o casamento. Neste ponto, a porca torce o rabo.


Primeiro, porque, se a reciprocidade tem predominância nos relacionamentos, a gratuidade deve ter primazia. Um amor que não seja gratuito, qualquer que seja o relacionamento em questão - familiar, de amizade, namoro, casamento - não se sustenta. Relacionamentos baseados predominantemente na reciprocidade podem até subsistir em sua aparência ou formalidade. Entretanto, correm o risco de carregar não o calor do amor e do afeto, mas a frieza da indiferença e da formalidade.


Segundo, porque ainda que o outro responda a um gesto ou sentimento nosso, essa resposta nunca será satisfatória. As medidas de um nunca serão do mesmo tamanho das medidas do outro. Haverá uma discrepância por deficiência ou por excesso naquilo que se recebe de volta. Algumas vezes, uma diferença grande. Outras, pequena.


Em terceiro lugar, porque a gratuidade em seu estado puro é algo demasiadamente elevado para a nossa condição tão humana de amar. Por detrás do gesto mais altruísta e gratuito há um latente e silencioso desejo de algo em troca. Para exemplificar apenas com um caso extremo, aquele que deu a sua vida pela vida de outro em um campo de concentração, fê-lo, em última instância, pela fé e pela certeza de uma bem-aventurança na eternidade. Não se trata de algo bom ou ruim. Trata-se apenas de uma constatação de uma realidade dos nossos relacionamentos.


Se a gratuidade deve ter primazia nos relacionamentos, ao mesmo tempo em que ela é algo por demais distante, qual é o segredo da permanência, por anos a fio, de relacionamentos de amizade intensa ou de uma vida matrimonial viva? Quais são as possíveis razões para que uma amizade ou um casamento sejam mantidos vivos e acesos ao longo dos anos? E, de maneira inversa, quais são os motivos para que tais relacionamentos findem de maneira silenciosa ou ruidosa? Talvez uma das respostas esteja em um sadio equilíbrio (ou na falta dele) entre gratuidade e reciprocidade.


Para nos atermos apenas ao âmbito da amizade, é natural dela, como canta Renato Teixeira, o abraço, o aperto de mão, o sorriso, o saber entender o silêncio e manter a presença, mesmo quando ausente. É a natural alegria do contato periódico, ainda que demorado para se realizar. É a alegria antecipada do principezinho do Exupéry quando o amigo anuncia que está para chegar. É a pergunta serena do amigo: como vai você? Guimarães Rosa definiu-o bem em Grande sertão: veredas:


Ah, não; amigo, para mim, é diferente. Não é um ajuste de um dar serviço ao outro, e receber, e saírem por este mundo, barganhando ajudas, ainda que sendo com o fazer a injustiça dos demais. Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou - amigo - é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é.


É engraçado como uma amizade gratuita tem justamente a capacidade de despertar gestos mútuos de reciprocidade, que acontecem com naturalidade, sem cobranças. Neste ponto, a gratuidade e a reciprocidade dão-se a as mãos. O coração sabe de uma maneira intuitiva quando isso acontece. Sabe que, mesmo no silêncio e na ausência do amigo, a amizade permanece acesa sob as cinzas. Mas, sabe, também, quando a amizade finda ou está a caminho de findar.


Talvez a grande lição a aprender de uma amizade que finda seja justamente esta: guardar no coração o bem operado em nós pela amizade que findou. E continuar sendo feliz. Simples assim.

2 de mar. de 2011

UM CANTO, UM DEMÔNIO E UMA MONTANHA

 


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Uma vez por ano, uma tia, costureira, consumia a sua semana costurando pequenos pedaços de tecido, um a um, para fazer colchas de retalhos. Todos os restos de tecidos guardados ao longo do ano eram recortados em retângulos ou quadrados de diferentes tamanhos e unidos pelo fio da sua máquina de costura, pela sua paciência, pelo seu silêncio e pela sua oração. Algumas vezes, era necessário chamá-la duas vezes para que ela saísse do transe da sua oração e do seu trabalho. Quando prontas, as colchas eram doadas para asilos ou outras pessoas.

Hoje, também eu quero costurar uma colcha de retalhos. Não retalhos de tecidos, mas de coisas que me aquecem o coração. A linha será substituída pelas palavras. Permanecerão, entretanto, o silêncio e a oração, que nascem de um coração agradecido por tudo aquilo que a vida  nos concede por meio das pessoas que nos habitam e que tornam a nossa existência mais serena.

O primeiro retalho é um canto que me acompanha há quase vinte anos. Os nossos relacionamentos com a música são como namoros, são como o encontro entre corações que se reconhecem amparados e aquecidos mutuamente. O enamoramento com alguma música pode ser manso e sereno, como o enamoramento pelo “Bolero”, de Ravel, através do qual somos seduzidos pouco a pouco, à medida que a intensidade da música avança dos seus acordes iniciais ao êxtase final. Com outras músicas, iniciamos um relacionamento intenso e apaixonado logo à primeira vista, ou, mais apropriadamente, à primeira audição. Reconhecemos, nelas, a nossa alma e a nossa existência. Estabelecemos, com as suas palavras, com as suas metáforas, com a sua poesia e com a sua melodia, aquela comunhão própria dos apaixonados. Foi assim com o canto que trago para iniciar a costura da minha colcha. É um canto em que a letra e a melodia já nasceram apaixonados: foram feitos um para o outro. O autor da melodia propôs ao autor da letra: “crie uma letra, a mais bela possível, e eu comporei a melodia mais bela para ela”. Nasceu, assim, “Verei o amor”:

Vou andando, vou seguindo, sem ter onde parar.
Vou olhando, procurando, o Amor a me guiar.
Não há luzes, não há flores, nem canto, nem luar.
Vejo a noite, sem estrelas e eu louco a caminhar.
Não sei quando, não sei onde, mas verei o amor!

Ruge o vento, vou seguindo, sem ter quem abraçar.
Não há rostos sorridentes e eu firme a caminhar.
Atravesso densas nuvens em busca de um olhar.
Ultrapasso cordilheiras seguro de chegar.
Vou cansando, tropeçando, mas verei o amor!

Não há força que me prenda ou impeça de avançar.
Não há rogos que me movam e façam recuar.
Sigo em frente, sempre em frente, há um norte a me chamar.
Vou sabendo que, ansioso, estás a me esperar.
Vão cessando meus cantares, mas verei o amor!


A letra do canto bebe do mesmo espírito de “Noite escura”, um dos cantos místicos de São João da Cruz. Nesse canto, João da Cruz descreve a união mística da alma com Deus, em meio à noite escura da busca e da existência humana. E, assim como o autor do nosso canto afirma a sua certeza de que ele irá contemplar o Amor ao fim da sua caminhada, também João da Cruz afirma a sua certeza de que a noite é ditosa, pois ela mesma é o guia até o Amado.

“Verei o amor” sinaliza para uma realidade da existência humana: a solidão. Cada ser  humano e o restante da criação são a emanação da relação amorosa da Comunhão Trinitária. O ser humano e a criação inteira nascem com uma saudade entranhada no seu corpo: saudade daquela comunhão trinitária cuja imagem e semelhança eles carregam em si. Por isso, gemem dores de parto enquanto não se encontrarem plenamente imersos na comunhão desse Amor Trinitário. Religião é sinônimo de saudade. Saudade não de uma realidade perdida em um passado remoto, mas desejo de realização de um amor pleno ofertado a nós nesta presente realidade e que nos projeta para o futuro. É uma saudade do que virá.

O amor humano, em suas diferentes formas de expressão e de manifestação, é o único meio de experimentarmos, nesta presente realidade, uma vaga aproximação do que seja o Amor Trinitário. E, neste ponto, as coisas se complicam. É que, se o amor de Deus é pura gratuidade, é um dar-se incondicional, o amor humano reclama algo em troca. Em situações mais brandas, reclama atenção, reclama afeto, reclama cuidado, reclama diálogo. Em casos mais extremos, reclama a própria pessoa amada, chegando ao ponto de desejar possuí-la totalmente. O último grau dessa caricatura do amor é o crime passional: se o indivíduo não pode ter toda a atenção da pessoa supostamente amada, ninguém mais a terá.

Não é possível haver amor sem gratuidade. E, da mesma forma que o amor, que é, por natureza, em processo – nunca se ama alguém, aprende-se a amá-lo –, também a vivência da gratuidade é um processo lento e gradativo, que cresce em simbiose estreita com a experiência do verdadeiro amor. Mas, nesse processo, quanto sofrimento mútuo e quanta complicação, o contrário de amar. Amar é descomplicar. Amar é simplificar os sentimentos e os afetos. E, neste ponto, trago mais um pedaço de tecido: a poesia de Alberto Caeiro, que propôs:

Sejamos simples e calmos,
Como os regatos e as árvores,
E Deus amar-nos-á fazendo de nós
Nós como as árvores são árvores
E como os regatos são regatos,
E dar-nos-á verdor na sua primavera,
E um rio aonde ir ter quando acabemos...
E não nos dará mais nada, porque dar-nos mais seria tirar-nos mais.


Alberto Caeiro é um poeta com uma relação toda especial com as demais criaturas:

Ah, como os mais simples dos homens
São doentes e confusos e estúpidos
Ao pé da clara simplicidade
E saúde em existir
Das árvores e das plantas.


Ele contrasta a natureza das demais criaturas com relação aos seus semelhantes humanos:

Quem me dera que eu fosse o pó da estrada
E que os pés dos pobres me estivessem pisando...

Quem me dera que eu fosse os rios que correm
E as lavadeiras estivessem à minha beira...

Quem me dera que eu fosse os choupos à margem do rio
E tivesse só o céu por cima e a água por baixo...

Quem me dera que eu fosse o burro do moleiro
E que ele me batesse e me estimasse...

Antes isso que ser o que atravessa a vida
Olhando para trás de si e tendo pena...


Alberto Caeiro é um dos heterônimos de Fernando Pessoa. Ao contrário dos pseudônimos, quando um mesmo autor utiliza vários nomes para a sua única e mesma personalidade e estilo de escrever, os heterônimos constituem várias personalidades distintas habitando o mesmo escritor. Fernando Pessoa seria mais corretamente nomeado Fernando Pessoas, no plural. Nele habitam diferentes pessoas, personalidades distintas. Alberto Caeiro é diferente de Ricardo Reis, que é diferente de Álvaro de Campos, que são diferentes, por sua vez, de Fernando Pessoa, o ortônimo, que abrigava os heterônimos. Tudo isso pode parecer complicado, ao contrário do que ensinava Alberto Caeiro. Há uma forma e uma palavra mais simples para descrever esse fenômeno. Fernando Pessoa é um demônio. Um demônio, não, ele é uma legião, “porque somos muitos”. Desconfio que escrever era a forma de ele nomear os seus demônios e exorcizá-los. Sorte nossa, herdeiros dos seus demônios poéticos.

Na casa onde viveu Fernando Pessoa, em Lisboa, há uma pequena e seleta biblioteca de poetas lusófonos. Nela é possível encontrar livros de Adélia Prado. E é com a poesia dela que eu trago mais um retalho de tecido para a minha colcha: a Serra da Piedade.

Minas tem coisas terríveis,
a Serra da Piedade me transtorna.
Em meio a tanta rocha
de tão imediata beleza,
edificações geridas pelo inferno,
pelo descriador do mundo.


Santuário de Nossa Senhora da Piedade, Serra da Piedade, Minas Gerais. No alto dessa serra próxima a Belo Horizonte, formada por imensos paredões rochosos, pontiagudos e disformes, parecendo terem sido semeados pelo descriador do mundo, tento exorcizar meus próprios demônios. Exorcismo é uma luta solitária. Como Fernando Pessoa, trazemos uma legião de demônios, de realidades conflitantes em nós: luzes e sombras, impulsos de vida e de morte, altruísmo e egoísmo, amores e ódios, gratuidade e desejo de posse, lobos e cordeiros, crianças e serpentes. Lá no alto da Serra da Piedade, esse caos real que carregamos em nós cessa o seu ruidoso conflito. Os nossos demônios interiores pacificam-se e opera-se, em nós, aquela paz messiânica vislumbrada pelo profeta Isaías e que um dia irá tomar conta de toda a criação:

O lobo será hóspede do cordeiro, a pantera se deitará ao lado do cabrito; o bezerro e o leãozinho pastarão juntos, e um menino os guiará; pastarão juntos o urso e a vaca, e suas crias ficarão deitadas lado a lado, e o leão comerá capim como o boi. O bebê brincará no buraco da cobra venenosa, a criancinha enfiará a mão no esconderijo da serpente. Ninguém agirá mal nem provocará destruição em meu monte santo, pois a terra estará cheia do conhecimento de YHWH, como as águas enchem o mar  (Is 11,6-9).

Pacificados e serenados do nosso turbilhão interior, opera-se, finalmente, o fenômeno da comunhão profunda com todas as realidades e pessoas amadas que nos habitam. É uma experiência mais estreita do Amor Trinitário. Cessa o nosso desejo de posse. O corpo expande-se até alcançar e tocar, com os nossos pensamentos de amor, as pessoas amadas. O coração abrasa-se com a memória e a presença de tantas pessoas queridas e amadas em nossa vida. Silenciamos ainda mais e passamos, do amor às pessoas que nos habitam, ao amor de Deus mesmo, fonte e consumação de todo amor humano. É a graça. O paradoxal em toda essa experiência de comunhão é que precisamos cultivar a nossa própria solidão. Mais sós para sermos mais nós. Entretanto, para sermos plenamente nós mesmos, é em direção ao Outro e a todo o resto que temos que avançar.

E assim, termino a costura dessa pequena colcha de retalhos. O leitor que o desejar poderá enrolar-se nela e também nela se aquecer. Afinal, por qual motivo não haverá de ser a minha colcha, feita de palavras e de comunhão, mais aconchegante do que qualquer outra?

1 de mai. de 2010

A SOLIDÃO, A BELEZA E O MISTÉRIO.






Caraça, Santuário de Nossa Senhora Mãe dos Homens. Entre tantos títulos atribuídos àquela que gestou em seu ventre, carregou no seu regaço e amamentou no seu seio aquele por quem todo o cosmos foi criado, no Caraça ela é venerada como “Mãe dos Homens”, mãe da humanidade. Foi sob essa invocação que Irmão Lourenço, o ermitão e irmão franciscano fundador do Santuário do Caraça, em Minas Gerais, colocou a proteção desse importante santuário na história da Igreja do Brasil. Visitar esse santuário é sempre uma experiência revigorante. Em primeiro lugar, graças ao ecossistema que compõe a Reserva Particular de Patrimônio Natural que circunda uma grande área em volta da sede do santuário. Em meio às montanhas, às rochas, à mata e às cachoeiras, conseguimos reencontrar a inteireza e a serenidade por vezes esquecidas no quotidiano de nossa vida. Em segundo lugar, graças ao templo neogótico no centro do complexo de edificações que compõem a sede do santuário. Infelizmente, é necessário dizê-lo: em não poucos templos católicos sentimos a vontade de sair deles para podermos rezar. Não encontramos neles o ambiente de silêncio, de beleza e de mistério pelos quais ansiamos. No templo do Caraça, felizmente, ocorre exatamente o contrário. Ao nos adentrarmos no seu interior, feito de pedra e de vidro, respiramos silêncio e sacralidade: Deus habita esse lugar. A pedra talhada, usada no pórtico de entrada, nas colunas e na ornamentação do templo, nos faz pensar: se mãos humanas conseguem extrair tamanha beleza de material tão bruto, não poderá fazer o mesmo Deus conosco? Os vitrais das janelas e das rosáceas dão leveza à pedra usada na sustentação e na ornamentação do templo.


Sozinhos no interior desse templo, a invocação a Maria como “Mãe da Humanidade” ressoa em nossa oração. O cristianismo, antes de ser uma experiência religiosa que nos eleva aos céus, é um caminho religioso que nos atira à terra, ao quotidiano da nossa vida. Deus, quando quis nos salvar, não nos levou para junto dele, mas fez o caminho inverso: desceu à nossa humanidade, veio ao encontro da nossa humana realidade, com tudo aquilo que ela tem de grandioso e de mesquinho, para somente então, com a sua ressurreição, introduzir a nossa humanidade na comunhão trinitária. O Verbo de Deus encarnado no ventre de Maria é o humano por excelência. Nele não habitou o pecado, pois o pecado é justamente aquilo que nos desumaniza. Pecar não é humano. Pecar é desumano. E se Jesus é o humano por excelência e ele é o caminho que nos conduz a Deus, não há salvação fora da nossa humanização.


Ao assumir a nossa condição humana, Jesus assumiu uma realidade que carregamos ao longo da nossa existência: a solidão. Criados à imagem e semelhança de Deus Trindade, de Deus Comunhão, estaremos inquietos enquanto não estivermos plenamente mergulhados na comunhão desse Amor Trinitário. A solidão humana não é o vazio de uma ausência, mas a saudade e o desejo de uma comunhão apenas timidamente experienciada nesta nossa presente realidade. Como Teilhard de Chardin, em sua “Missa no Altar do Mundo”, elevamos a Deus a nossa súplica: Senhor, fazei-nos um!


Na vivência da sua solidão, Jesus estabeleceu o seu relacionamento único com o Pai, transformando a sua solidão em oração profunda e comunhão com o Pai. Nesses momentos de solidão, Jesus encontrou a força e o discernimento necessários à sua missão e ao enfrentamento dos conflitos decorrentes da sua pregação e da sua prática. Finalmente, no alto da cruz, Jesus precisou enfrentar a solidão derradeira de um aparente abandono.


Neste oceano de solidão em que navegamos, enquanto não chegamos ao porto seguro do nosso destino final, experienciamos breves paragens, pequenos ancoradouros onde atracamos o barco da nossa existência e do nosso navegar. Aí repousamos e nos reabastecemos para, logo em seguida, prosseguirmos viagem. Esses breves momentos de descanso e de ancoragem são os encontros que a vida nos proporciona de maneira gratuita. É a graça. Essa graça se manifesta no encontro e no estabelecimento de amizades duradouras. Manifesta-se quando, sozinhos, contemplamos o ocaso do sol ao entardecer. Manifesta-se quando a beleza e a simplicidade do espaço, do canto e da ação litúrgica nos introduzem no mistério no qual estaremos plenamente mergulhados um dia. Manifesta-se quando, no pináculo de uma montanha, fazemos a experiência da nossa própria fragilidade e da fragilidade do ecossistema à nossa volta.


Mas, com brevidade, toda essa graça se esvai. Deixamos o Caraça. Despedimo-nos dos amigos. O sol finaliza o seu ocaso e vem a noite. A ação litúrgica é concluída e regressamos ao nosso quotidiano. Descemos a montanha. Desamarramos nossa existência desses portos seguros e retomamos nossa viagem. Regressamos ao oceano. Mas, voltamos transformados. A certeza da amizade mantém aquecido nosso coração. O mistério vivenciado na ação litúrgica educa o nosso olhar para percebermos esse mesmo mistério de amor e de bondade em meio ao quotidiano e à iniquidade da comunidade humana. A experiência de comunhão com o ecossistema e a sua fragilidade despertam em nós o desejo de cuidado para com a nossa casa terrestre. O sol findando a sua jornada diária no horizonte nos recorda o nosso destino final.


Ao entardecer, o sol abranda o seu fulgor. O azul límpido e intenso do céu no cume da montanha cede lugar à tonalidade ocra-avermelhada do sol. O sol, antes de uma intensidade que nos impedia de contemplá-lo diretamente, cessa o seu fulgor e nos concede a graça de podermos contemplá-lo diretamente sem ferir o nosso olhar. Vagarosamente, ele toca a linha do horizonte, até desaparecer por completo. Também nós, no entardecer da nossa vida, estaremos face a face com o sol da nossa existência. A intensidade do Amor Trinitário não mais será incômoda à nossa presente fragilidade. Poderemos, finalmente, ficar face a face com Deus, extasiados pela beleza desse amor que nos é oferecido em toda a sua plenitude. Saberemos, então, que chegamos, finalmente, ao nosso destino final. Guiados por esse amor, cruzaremos a linha do horizonte. E lá, para além da realidade desta presente existência, reencontraremos as pessoas amadas que nos antecederam nesse cruzar de horizontes. E aguardaremos, com ansiosa serenidade, a chegada de todos os conhecidos dos portos onde atracamos para podermos viver, todos juntos, aquilo que nesta vida vivemos como mistério, mas que, além do horizonte, é uma realidade de amor e de comunhão plenos.

1 de jun. de 2009

ASSIS É AQUI



Diálogo Interreligioso com rosto brasileiro


No dia 13 de maio último, aconteceu, em Belo Horizonte, a I Caminhada Cultural pela Liberdade Religiosa e pela Paz. A data escolhida para o evento – Dia da Abolição da Escravatura e Dia Nacional de Denúncia contra o Racismo – evidenciou o espírito com que o evento foi organizado: a denúncia contra a intolerância religiosa de que são vítimas as religiões de matriz africana e a busca pelo entendimento entre as religiões e pela paz na sociedade brasileira.

A iniciativa do evento partiu de grupos ligados ao movimento negro, ao candomblé e à umbanda. A Educafro participou do evento como uma das entidades organizadoras. O evento significou um passo importante em Belo Horizonte na luta contra a intolerância religiosa arraigada na sociedade brasileira e que, volta e meia, vem à tona através de atos de violência ou ações discriminatórias contra os adeptos da religiões de matriz africana. Mais do que uma denúncia contra a intolerância, a caminhada foi a demonstração de que uma convivência e compreensão mútua são possíveis.

Audiência pública

A caminhada foi precedida por uma audiência pública na Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, no dia 6/5/2009. No auditório da Assembleia, estiveram presentes lideranças do candomblé e da umbanda, representantes da Polícia Militar, da Igreja Metodista, da Igreja Católica, da Secretaria dos Direitos Humanos, da comunidade Hare Krishna e de entidades culturais e universitárias.

Os líderes religiosos afirmaram a indignação frente a práticas discriminatórias e de intolerância contra as religiões afro-brasileiras. É uma realidade frente à qual não podemos fechar nossos olhos. Em fevereiro do ano passado, um terreiro de Contagem foi invadido por policiais militares, sem mandado policial, a partir de uma denúncia anônima de cárcere privado. Os locais sagrados foram violados e várias pessoas foram levadas para a delegacia, quando foi confirmado que a denúncia era improcedente. Em abril deste ano, um homem encapuzado invadiu um terreiro de candomblé no bairro Dom Silvério, em Belo Horizonte, matando uma pessoa e deixando várias feridas. Uma cena como essa – policiais armados invadindo um lugar de culto – seria plausível dentro de um templo católico ou da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD)? Esta última denominação religiosa, por sinal, tem sido responsável por exportar para países da África uma intolerância religiosa à moda brasileira. Em Moçambique, pastores brasileiros mereceram destaque na imprensa local por fazerem com a religião tradicional africana (o culto familiar aos antepassados) o mesmo que fazem em relação ao candomblé e a umbanda no Brasil: a satanização dos ritos dessas religiões. Na Zâmbia, a IURD chegou a ser proibida de operar no país, devido às mesmas acusações de provocar intolerância no meio da população local. O Brasil exporta, atualmente, não apenas novelas, frangos e sandálias havaianas. Exporta, também, intolerância religiosa.

As igrejas pentecostais são as principais protagonistas de atos de intolerância. Neste sentido, não se pode excluir o papel da Igreja Católica nessa cultura de intolerância, principalmente através do movimento pentecostal católico (RCC). Em 2008, a Justiça da Bahia determinou o recolhimento, em Salvador, de todos os exemplares do livro "Sim, Sim! Não, Não! Reflexões de Cura e Libertação", da editora Canção Nova, escrito pelo padre Jonas Abib. Para o Ministério Público baiano, que pediu o recolhimento do livro, o padre cometeu o crime de "prática e incitação de discriminação ou preconceito religioso", previsto na lei 7. 716, de 1989. De acordo com o promotor Almiro Sena, Abib faz no livro "afirmações inverídicas e preconceituosas à religião espírita e às religiões de matriz africana, como a umbanda e o candomblé, além de flagrante incitação à destruição e ao desrespeito aos seus objetos de culto". No livro, o autor afirma que "O demônio, dizem muitos, ‘não é nada criativo’. (...) Ele, que no passado se escondia por trás dos ídolos, hoje se esconde nos rituais e nas práticas do espiritismo, da umbanda, do candomblé". Esta satanização das religiões afro-brasileiras, típica de grupos religiosos fanáticos, tem crescido na sociedade brasileira, à medida em que o pentecostalismo – seja ele de cunho evangélico ou católico – ganha espaço na nossa sociedade. É emblemático que padres e pastores, com acesso privilegiado aos meios de comunicação social (uma concessão do Estado brasileiro) e com o consequente poder de persuassão das massas, se coloquem a divulgar e a incentivar práticas contrárias à Constituição brasileira e, fundamentalmente, ao Evangelho.

A Educafro e o diálogo com as religiões afro-brasileiras

A Educafro Minas, pelo fato de ser um cursinho pré-vestibular com enfoque racial, tem possibilitado à Província Santa Cruz um contato institucional com o movimento negro e com os grupos religiosos de matriz africana na região metropolitana de Belo Horizonte. Sem contato, não há diálogo. A sede da Educafro em Belo Horizonte serviu de apoio para a preparação e o lançamento da caminhada. Os organizadores da caminhada sabem: a Educafro está ligada aos frades franciscanos e eles os acolhem, com os franciscanos é possível haver diálogo e compreensão. Pois o contrário da intolerância não é a tolerância. Tolerar as demais denominações religiosas é o princípio de uma caminhada que devemos percorrer, mas não é o que se busca como meta. O que se busca ao abandonarmos a intolerância é a compreensão, o conhecimento das razões profundas das tradições religiosas e culturais afro-brasileiras, para daí resultar uma convivência respeitosa e fraterna.

No dia da caminhada e na audiência na Assembleia Legislativa, a força simbólica do hábito franciscano misturado em meio à indumentária branca dos adeptos do candomblé e da umbanda falava por si só, num paralelo em menor escala do Encontro Mundial de Oração pela Paz, realizado em Assis, em 27 de outubro de 1986. A imagem do papa João Paulo II rodeado pelos representantes das principais tradições religiosas espalhadas no mundo, em coloridas indumentárias e postados em frente à igrejinha da Porciúncula, onde São Francisco deu início ao seu projeto evangélico, foi um momento histórico na caminhada do diálogo interreligioso.
Em Belo Horizonte, como em Assis, a caminhada de braços entrelaçados dos frades com seus hábitos e as yalorixás e babalorixás em suas roupas rituais, demonstram a possibilidade concreta desse entendimento e respeito fraterno. Uma liderança do candomblé afirmava: nos nossos toques de sexta-feira, começamos sempre com a oração pela paz de São Francisco. O santo de Assis, banido do meio das senzalas e da religião dos povos negros pela sua associação com os senhores de escravos (e com os próprios frades escravagistas), retorna no nosso tempo como símbolo e exemplo da paz e do entendimento.

O rosto brasileiro do diálogo interreligioso

O diálogo interreligioso constitui um duplo imperativo para os membros da família franciscana. Fundamentalmente, é um imperativo cristão. A intolerância, seja ela religiosa ou de qualquer outra forma, é incompatível com o cristianismo. Na prática e na pregação de Jesus, ele se mostrou disponível para o diálogo com a samaritana, elogiou a fé da mulher siro-fenícia, apresentou o samaritano da parábola como exemplo de compaixão, acolheu aqueles que eram tidos como pecadores pela sociedade do seu tempo e com eles confraternizava e tomava refeição. Na sua pregação, afirmou que Deus fazia chover sobre justos e injustos, que a oferta de salvação é dada a todos, indistintamente, de uma maneira misteriosa. Nos passos de Jesus, o gesto de Francisco de Assis de dialogar com o sultão Malek-al-Kamil durante a V Cruzada no ano de 1219 na cidade de Damieta, no Egito, mostra a disposição e a abertura do santo de Assis para o diálogo, mesmo no contexto belicoso das cruzadas cristãs. Nasceu aqui – mas, não somente neste episódio – o carisma franciscano para o diálogo e o entendimento entre as culturas, povos e religiões. Portanto, o diálogo é, também, um imperativo proveniente do nosso carisma fundacional.

Esse imperativo para o diálogo, ao colocar os pés em terras brasileiras, deveria, em princípio, priorizar três grupos principais: os adeptos do candomblé, da umbanda e do espiritismo kardecista. E isso por dois motivos principais. O primeiro, por questões numéricas. Essas tradições religiosas representam, numericamente, o maior grupo fora da esfera do cristianismo católico ou evangélico no Brasil. O segundo motivo tem a ver com o papel, principalmente do candomblé e da umbanda, na formação da cultura e da identidade brasileira. É esse diálogo interreligioso de cor negra e de periferia que deveria ser priorizado aqui no Brasil, onde o judaísmo e islamismo estão longe de se apresentarem como grandes desafios à nossa fé e ao nosso entendimento.

Diferente da manhã tensa e violenta que tomou conta do centro de Belo Horizonte, quando estudantes secundaristas em manifestação pela adoção do meio-passe nos ônibus da capital entraram em confronto com a Polícia Militar, a Caminhada pela Liberdade Religiosa transcorreu de maneira descontraída e alegre. Desde o início da tarde, os diferentes grupos se revezaram em apresentações musicais, intercaladas pelas falas dos representantes dos diferentes grupos. Às 18 horas, o grupo saiu em caminhada pela Avenida Afonso Pena.

A caminhada terminou como começou: uma grande confraternização de diferenças religiosas na Praça Afonso Arinos. Ao observar a cena do alto co carro de som, uma certeza fazia-se presente. Jesus, ao falar do Reino, usava imagens relacionadas com banquetes para descrevê-lo. A imagem do banquete messiânico do Reino de Deus carrega várias realidades: a alegria, a comensalidade, o congraçamento, a comunhão, o sentar-se junto para cear, a música, a dança e a festa. Neste sentido, é possível afirmar: naquele congraçamento na Praça Afonso Arinos, estava presente, ainda que de maneira seminal, a realidade do Reino de Deus no meio de nós.

12 de mai. de 2009

EUCARISTIA: A SACRALIDADE DAS REALIDADES MUNDANAS



Alguém afirmou certa vez: quem não tem para com o pão cotidiano a mesma reverência prestada ao pão eucarístico ainda não compreendeu suficientemente a grandeza do mistério da encarnação de Jesus no ventre de Maria e nas realidades humanas. Assim, entre as várias dimensões da eucaristia (por exemplo, sua dimensão profética, que aponta para a injusta exclusão de alguns membros do corpo de Cristo de uma vida digna; sua dimensão santificadora, através da nossa co-participação no corpo cósmico de Cristo e, nele, no seio da comunhão Trinitária; sua dimensão escatológica, quando antecipamos nesta vida a comunhão plena que será estabelecida na vida eterna), há um aspecto que não pode ser esquecido: Deus escolheu duas realidades mundanas (pão e vinho) para manifestar a sua presença eucarística (mistérica) no meio de nós. Ora, pão e vinho são muito mais do que simples alimento e bebida. Por trás dessa realidade – alimento e bebida – encontra-se a realidade do trabalho transformador humano que semeou e plantou a semente. Encontra-se a graça de Deus que as fez germinar. Encontra-se a co-participação humana na obra criadora de Deus, que alimenta a sua criação. Encontra-se a bondade presente no ser humano que partilhou o fruto da colheita com quem estava necessitado. Encontra-se a alegria da presença do Reino de Deus no meio de nós, quando nos reunimos em festa, cantamos, comemos e bebemos para saciar a nossa sede de felicidade e de comunhão. Encontra-se o esforço humano por adequar este mundo ao projeto amoroso de Deus. Por tudo isso, é possível afirmar: trabalhar, amar este mundo e suas criaturas, empenhar-se na luta por justiça é fazer com que a realidade do corpo eucarístico de Cristo na partícula consagrada e no mundo se torne transparente ao nosso olhar.

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