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Uma vez por ano, uma tia, costureira, consumia a sua semana costurando pequenos pedaços de tecido, um a um, para fazer colchas de retalhos. Todos os restos de tecidos guardados ao longo do ano eram recortados em retângulos ou quadrados de diferentes tamanhos e unidos pelo fio da sua máquina de costura, pela sua paciência, pelo seu silêncio e pela sua oração. Algumas vezes, era necessário chamá-la duas vezes para que ela saísse do transe da sua oração e do seu trabalho. Quando prontas, as colchas eram doadas para asilos ou outras pessoas.
Hoje, também eu quero costurar uma colcha de retalhos. Não retalhos de tecidos, mas de coisas que me aquecem o coração. A linha será substituída pelas palavras. Permanecerão, entretanto, o silêncio e a oração, que nascem de um coração agradecido por tudo aquilo que a vida nos concede por meio das pessoas que nos habitam e que tornam a nossa existência mais serena.
O primeiro retalho é um canto que me acompanha há quase vinte anos. Os nossos relacionamentos com a música são como namoros, são como o encontro entre corações que se reconhecem amparados e aquecidos mutuamente. O enamoramento com alguma música pode ser manso e sereno, como o enamoramento pelo “Bolero”, de Ravel, através do qual somos seduzidos pouco a pouco, à medida que a intensidade da música avança dos seus acordes iniciais ao êxtase final. Com outras músicas, iniciamos um relacionamento intenso e apaixonado logo à primeira vista, ou, mais apropriadamente, à primeira audição. Reconhecemos, nelas, a nossa alma e a nossa existência. Estabelecemos, com as suas palavras, com as suas metáforas, com a sua poesia e com a sua melodia, aquela comunhão própria dos apaixonados. Foi assim com o canto que trago para iniciar a costura da minha colcha. É um canto em que a letra e a melodia já nasceram apaixonados: foram feitos um para o outro. O autor da melodia propôs ao autor da letra: “crie uma letra, a mais bela possível, e eu comporei a melodia mais bela para ela”. Nasceu, assim, “Verei o amor”:
Vou andando, vou seguindo, sem ter onde parar.
Vou olhando, procurando, o Amor a me guiar.
Não há luzes, não há flores, nem canto, nem luar.
Vejo a noite, sem estrelas e eu louco a caminhar.
Não sei quando, não sei onde, mas verei o amor!
Ruge o vento, vou seguindo, sem ter quem abraçar.
Não há rostos sorridentes e eu firme a caminhar.
Atravesso densas nuvens em busca de um olhar.
Ultrapasso cordilheiras seguro de chegar.
Vou cansando, tropeçando, mas verei o amor!
Não há força que me prenda ou impeça de avançar.
Não há rogos que me movam e façam recuar.
Sigo em frente, sempre em frente, há um norte a me chamar.
Vou sabendo que, ansioso, estás a me esperar.
Vão cessando meus cantares, mas verei o amor!
A letra do canto bebe do mesmo espírito de “Noite escura”, um dos cantos místicos de São João da Cruz. Nesse canto, João da Cruz descreve a união mística da alma com Deus, em meio à noite escura da busca e da existência humana. E, assim como o autor do nosso canto afirma a sua certeza de que ele irá contemplar o Amor ao fim da sua caminhada, também João da Cruz afirma a sua certeza de que a noite é ditosa, pois ela mesma é o guia até o Amado.
“Verei o amor” sinaliza para uma realidade da existência humana: a solidão. Cada ser humano e o restante da criação são a emanação da relação amorosa da Comunhão Trinitária. O ser humano e a criação inteira nascem com uma saudade entranhada no seu corpo: saudade daquela comunhão trinitária cuja imagem e semelhança eles carregam em si. Por isso, gemem dores de parto enquanto não se encontrarem plenamente imersos na comunhão desse Amor Trinitário. Religião é sinônimo de saudade. Saudade não de uma realidade perdida em um passado remoto, mas desejo de realização de um amor pleno ofertado a nós nesta presente realidade e que nos projeta para o futuro. É uma saudade do que virá.
O amor humano, em suas diferentes formas de expressão e de manifestação, é o único meio de experimentarmos, nesta presente realidade, uma vaga aproximação do que seja o Amor Trinitário. E, neste ponto, as coisas se complicam. É que, se o amor de Deus é pura gratuidade, é um dar-se incondicional, o amor humano reclama algo em troca. Em situações mais brandas, reclama atenção, reclama afeto, reclama cuidado, reclama diálogo. Em casos mais extremos, reclama a própria pessoa amada, chegando ao ponto de desejar possuí-la totalmente. O último grau dessa caricatura do amor é o crime passional: se o indivíduo não pode ter toda a atenção da pessoa supostamente amada, ninguém mais a terá.
Não é possível haver amor sem gratuidade. E, da mesma forma que o amor, que é, por natureza, em processo – nunca se ama alguém, aprende-se a amá-lo –, também a vivência da gratuidade é um processo lento e gradativo, que cresce em simbiose estreita com a experiência do verdadeiro amor. Mas, nesse processo, quanto sofrimento mútuo e quanta complicação, o contrário de amar. Amar é descomplicar. Amar é simplificar os sentimentos e os afetos. E, neste ponto, trago mais um pedaço de tecido: a poesia de Alberto Caeiro, que propôs:
Sejamos simples e calmos,
Como os regatos e as árvores,
E Deus amar-nos-á fazendo de nós
Nós como as árvores são árvores
E como os regatos são regatos,
E dar-nos-á verdor na sua primavera,
E um rio aonde ir ter quando acabemos...
E não nos dará mais nada, porque dar-nos mais seria tirar-nos mais.
Alberto Caeiro é um poeta com uma relação toda especial com as demais criaturas:
Ah, como os mais simples dos homens
São doentes e confusos e estúpidos
Ao pé da clara simplicidade
E saúde em existir
Das árvores e das plantas.
Ele contrasta a natureza das demais criaturas com relação aos seus semelhantes humanos:
Quem me dera que eu fosse o pó da estrada
E que os pés dos pobres me estivessem pisando...
Quem me dera que eu fosse os rios que correm
E as lavadeiras estivessem à minha beira...
Quem me dera que eu fosse os choupos à margem do rio
E tivesse só o céu por cima e a água por baixo...
Quem me dera que eu fosse o burro do moleiro
E que ele me batesse e me estimasse...
Antes isso que ser o que atravessa a vida
Olhando para trás de si e tendo pena...
Alberto Caeiro é um dos heterônimos de Fernando Pessoa. Ao contrário dos pseudônimos, quando um mesmo autor utiliza vários nomes para a sua única e mesma personalidade e estilo de escrever, os heterônimos constituem várias personalidades distintas habitando o mesmo escritor. Fernando Pessoa seria mais corretamente nomeado Fernando Pessoas, no plural. Nele habitam diferentes pessoas, personalidades distintas. Alberto Caeiro é diferente de Ricardo Reis, que é diferente de Álvaro de Campos, que são diferentes, por sua vez, de Fernando Pessoa, o ortônimo, que abrigava os heterônimos. Tudo isso pode parecer complicado, ao contrário do que ensinava Alberto Caeiro. Há uma forma e uma palavra mais simples para descrever esse fenômeno. Fernando Pessoa é um demônio. Um demônio, não, ele é uma legião, “porque somos muitos”. Desconfio que escrever era a forma de ele nomear os seus demônios e exorcizá-los. Sorte nossa, herdeiros dos seus demônios poéticos.
Na casa onde viveu Fernando Pessoa, em Lisboa, há uma pequena e seleta biblioteca de poetas lusófonos. Nela é possível encontrar livros de Adélia Prado. E é com a poesia dela que eu trago mais um retalho de tecido para a minha colcha: a Serra da Piedade.
Minas tem coisas terríveis,
a Serra da Piedade me transtorna.
Em meio a tanta rocha
de tão imediata beleza,
edificações geridas pelo inferno,
pelo descriador do mundo.
Santuário de Nossa Senhora da Piedade, Serra da Piedade, Minas Gerais. No alto dessa serra próxima a Belo Horizonte, formada por imensos paredões rochosos, pontiagudos e disformes, parecendo terem sido semeados pelo descriador do mundo, tento exorcizar meus próprios demônios. Exorcismo é uma luta solitária. Como Fernando Pessoa, trazemos uma legião de demônios, de realidades conflitantes em nós: luzes e sombras, impulsos de vida e de morte, altruísmo e egoísmo, amores e ódios, gratuidade e desejo de posse, lobos e cordeiros, crianças e serpentes. Lá no alto da Serra da Piedade, esse caos real que carregamos em nós cessa o seu ruidoso conflito. Os nossos demônios interiores pacificam-se e opera-se, em nós, aquela paz messiânica vislumbrada pelo profeta Isaías e que um dia irá tomar conta de toda a criação:
O lobo será hóspede do cordeiro, a pantera se deitará ao lado do cabrito; o bezerro e o leãozinho pastarão juntos, e um menino os guiará; pastarão juntos o urso e a vaca, e suas crias ficarão deitadas lado a lado, e o leão comerá capim como o boi. O bebê brincará no buraco da cobra venenosa, a criancinha enfiará a mão no esconderijo da serpente. Ninguém agirá mal nem provocará destruição em meu monte santo, pois a terra estará cheia do conhecimento de YHWH, como as águas enchem o mar (Is 11,6-9).
Pacificados e serenados do nosso turbilhão interior, opera-se, finalmente, o fenômeno da comunhão profunda com todas as realidades e pessoas amadas que nos habitam. É uma experiência mais estreita do Amor Trinitário. Cessa o nosso desejo de posse. O corpo expande-se até alcançar e tocar, com os nossos pensamentos de amor, as pessoas amadas. O coração abrasa-se com a memória e a presença de tantas pessoas queridas e amadas em nossa vida. Silenciamos ainda mais e passamos, do amor às pessoas que nos habitam, ao amor de Deus mesmo, fonte e consumação de todo amor humano. É a graça. O paradoxal em toda essa experiência de comunhão é que precisamos cultivar a nossa própria solidão. Mais sós para sermos mais nós. Entretanto, para sermos plenamente nós mesmos, é em direção ao Outro e a todo o resto que temos que avançar.
E assim, termino a costura dessa pequena colcha de retalhos. O leitor que o desejar poderá enrolar-se nela e também nela se aquecer. Afinal, por qual motivo não haverá de ser a minha colcha, feita de palavras e de comunhão, mais aconchegante do que qualquer outra?